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sábado, 5 de novembro de 2011

[Crônicas da taverna]/[Receitas da Taverna]: Servir e ser servido! (café Irlandês)


Noite fria aqui no cais, não há um homem dentro desta taverna que não esteja fungando. é como se os ventos que vem do mar fossem armados de espadas e não existe casaco ou escudo que possa nos defender.

É assim que eu posso definir minha taverna nos dias de hoje. Meu Vinho que sempre em boa temperatura é servido machuca os dentes de uns e mata de gastura outros, a lareira ali no canto do balcão é invejada por todos, mas não serve de muito pra alguém como eu que tem que descer todas as horas à área das garrafas. Como estão geladas! Mas mesmo assim a taverna continua com o seu bom movimento.

De certa forma tudo poderia continuar como um dia simples e comum, se não tivesse entrado por aquela porta um sujeito muito estranho para se dizer.

Entrou a passos largos, magros e longos. Rodeou uma mesa vazia como um cão que se prepara para deitar e sentou-se. Tirou da bolsa verde que tinha entre as pernas um livro grosso, porém pequeno e pôs-se a ler.
De fato não era "a garota que pára o baile", mas como o taverneiro eu preciso ficar de olhos em todos, não pude deixar de notar sua excêntrica presença. Pois bem continuei servindo os outros, afinal de contas, como regra da casa o cliente pede a bebida, senta-se e espera que eu o sirva. Mas não é de meu costume ir perguntar o que o mesmo quer.

Passaram uma, duas, três, quinze páginas e o mesmo não se pronunciou. Retirou um longo cachimbo de madeira envernizada, acendeu-o deu duas boas baforadas e continuou a leitura. Aquilo me intrigou! Cachimbo estranho... Mas com os muitos afazeres continuei a servir e ele a ler.

Tarde da noite o frio não atacava somente com espadas e lanças, mas com blocos grandes (senão Gigantes) de neve e a taverna já estava apenas com os seus clientes mais antigos (diga-se de passagem, mais chega
dos). Neste tempo o estranho se levantou. Marcou com os dedos a página que parou, estiou o cachimbo numa das fendas da mesa e caminhou até o balcão onde eu me encontrava próximo às lenhas da minúscula lareira.

- Por favor, sirva-me um pouco de café.
- Uhum... - baixei-me e peguei a velha moringa feita de barro com o café frio e despejei uma boa dose dentro do caldeirão que sempre ficava em cima da lareira só para re-esquentar um pouco. Minutos depois... - aqui está.

Sem desconserto nenhum ele apontou para as garrafas atrás de mim e disse:
- Você tem Whiskey aí?
- Claro - achei estranha a pronúncia, mas peguei a velha garrafa um pouco acima de seus dedos e coloquei no balcão.

Ele ficou um pouco despontado quando olhou para a garrafa, mas logo o sorriso re-abriu quando disse:

- pega aquela lá de cima pra mim?
- qual? Essa?
- não! Aquela mais acima...
- essa aqui? - já me irritando..
- essa com o trevo aí desenhado na rolha... Isso! Essa mesma.

Trouxe a garrafa até o balcão e me virava para subir na pequena escadinha para guardar a outra quando ouvi o barulho do levantar da rolha. Subitamente me virei para chamar-lhe a atenção (afina quem serve as bebidas aqui sou eu), mas parei em choque quando o vi colocar uma rápida dose de Whiskey no café, e com uma sobrancelha levantada, a longa barba negra e o esparso bigode loiro, me disse sorrindo:

- Você não teria por aí um leite mais batido ou cremoso não. né?


Confesso que em outros tempos eu já teria juntado qualquer folgado que SE servisse em minha taverna e ainda me perguntasse se eu tenho leite. Mas como o dia era frio eu resolvi fazer uma exceção, sorrir da mesma forma (com a sobrancelha levantada também) e dizer:

- tem um leite aqui sim, mas de tão velho parece estar até mais grosso.
- é exatamente dis
so que eu preciso.

Sem delongas o estranho pegou a botija de leite grosso e deu uma boa sacudida nele.
Pensei: pronto! Agora só falta me jogar toda essa mistura maluca. Demorou um pouco mais e depois de misturar o Whiskey no café quente despejou um pouco deste leite cremoso em cima. Enquanto me dizia: Whisky é só o escocês; WhiskEy é Irlandês!

Confesso que ficou bonito o negócio, mas não era pra mim. Tomou a liberdade de pegar na minha frente um copo limpo que estava no fim do balcão, dividiu aquela estranha mistura em dois copos e me serviu.
Retornou para sua mesa, limpou o cachimbo, recolocou mais fumo, voltou a ler.concluiu a leitura e voltou para me agradecer. Repousou no balcão duas moedas grandes com escritas de países que eu não conhecia. Mas insisti em ficar com apenas uma e devolver a outra para ele em forma de pagamento. Afinal de contas. Há dias que se serve e há dias que se é servido!


*---------------------*


SALVE TAVERNANDOS!!!!!

Depois de longos tempos parados aqui na taverna, comemoro a alegre volta com este frio inspirador que tenho passado por essas bandas!
e não posso deixar de fazer menção de três pessoas: Ingrid (de quem a muito eu não falo, mas tenho muitas saudades!) de Epaminondas (meu aluno do 1º ano aqui em Eunápolis, que de uma forma filosófica e muito sábia me lembrou que eu tenho uma taverna e uma raposa em forma de blog pra cuidar), e de Pheddie Cadarn - Um irlandês exilado no rio de janeiro e conhecido meu pelas internets da vida! hehehe brincadeiras a parte, pedi para Phreddie que me mandasse uma receita de café irlandês pela net e prontamente ele o
fez. Como agradecimento, resolvi inseri-lo dentro do conto nesta noite.

Pois bem, a receita vai logo aqui abaixo então, sem mais delongas com vocês:

O CAFÉ IRLANDÊS!

O Irish Coffee é como um café de luxo. Sua concentração, beleza e complexidade explicam a fama de uma bebida quente feita para realmente aquecer os corações. E não basta emoção, é preciso estar preparado para tomar um bom café forte com um tradicional uísque irlandês.

o uísque irlandês é um uísque normal, só que feito fora da Escócia e, portanto, recebe o nome de “Whiskey”, com um “e” a mais. É assim porque “whisky” é apenas na Escócia. Nos outros lugares do mundo é “Whiskey”. Tem o mesmo efeito de “champagne” e “espumante”.









INGREDIENTES
27 ml de whiskey irlandês (pode ser o Jameson)
45 ml de café forte quente (expresso, de preferência)
18 ml de creme de leite fresco batido
1 colher de bar de açúcar (bailarina)

Utilize a taça para Irish Coffee. Aqueça a taça com água fervendo. Dispense. Misture o uísque, o café e o açúcar. Coloque o creme de leite batido por cima despejando sobre as "costas" de uma colher aquecida. Não misture novamente.

BEBA MUITO! E DANCE AO SOM DE MÚSICAS IRLANDESAS É CLARO!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

[Cronicas da Taverna] : Letras que fazem história





Não era de hoje que eu estava indignado com rodeio de ratos entre as estantes da biblioteca da Taverna desde que baixei o piso para o porão. Mas como sempre tive tantos afazeres para resolver (principalmente nos fins de semana), nunca me sobrava tempo para concluir minha caça aos ratos que não só se alimentavam das páginas dos célebres escritores de minha época como se empanturravam de farpas de madeiras dos barris que consegui trazer do porto com tanta dificuldade.

Em fim, certa quarta-feira em que tudo estava calmo, resolvi passar um pano velho, porém limpo entre as prateleiras dos livros da Taverna. Sem muito zelo peguei o balde pequeno de carvalho e enchi daquela água escura que corre da bica ao lado da taverna. Instantes depois me assentei no não e comecei a passar o pano úmido nas lombadas quadradas dos livros que estavam a pouco centímetros do chão. o cheiro do mofo e a espessura dos livros mostravam que a umidade ali no chão não era pouca.

Em seguida avancei para a segunda prateleira no canto direito havia uma lacuna de livros que dava visão para o outro lado da prateleira por causa de minha organização. Mas foi começar a limpeza daquela prateleira, que subitamente eu ouvi passos do outro lado da estante. exclamei um "já vai" de forma calma, e me levantei dobrando o pano assimetricamente numa das mãos.

fui até o outro lado da prateleira e nada encontrei. intrigado, pensava comigo mesmo: poxa! eu ouvi passos! Tenho certeza! Mas, sem pestanejar muito voltei a me abaixar e continuar as limpezas.

Nas quartas e quintas fileiras havia lacunas de mais ou menos 3 palmos de distancia, isso resolveria o problema claramente dos livros que estava estragando lá em baixo.
Enquanto tirava a medida do espaço em que com certeza o livro ficaria bem, tive seguinte nítida visão:




Ah! é claro que eu conhecia aquele fraque azul Royal, aqueles dedos finos e o decot... em fim, passei o pano (agora bem sujo) na cara, para ver se a (suja) água fria trar-me-ia a tona novamente. Mas somente me irritaram os olhos. Após alguns esfregues, agora com a vista recobrada, pude me inclinar e olhar novamente para "o que" estava lá do outro lado.
Obviamente "nada" estava lá do outro lado. e mais uma vez eu passei a mão suja na testa dizendo comigo mesmo: ah rapouso... Acorde homem! coloquei a ponta do dedão e do dedo médio na ponta dos olhos e fechei-os bem forte.

Segundo depois lá estava eu de pé limpando a sexta e sétima fileira logo na altura dos meus olhos. não obstante, encontrei algumas anotações amarradas que ha muito só via de longe e agora que tenho tempo, resolvi manuseá-la.


Desenrolei a linha e pude perceber que não se tratava de um livro, mas de algo guardando um pergaminho que enrolado e amassado se encontrava dentro das anotações.

desenrolei com muito cuidado e pude ver que se tratava das primeiras lições que a raposa havia aprendido sobre escrever. e haviam correções feitas de uma outra pena, e assinadas com um sinete real. "obviamente faz parte de seu ensino".

Logo adiante haviam quatro colunas como um texto contínuo escrito por mãos de criança mesmo, com todas as rasuras, borrões e erros.

"quando madura estar, desejo um amor para recordar.
Não que tenha que ser eterno, mas que seja eterno enquanto dure.
Talvez um dia, isso só perdure em meus sonhos, e se isso acontecer
Significa que não deve existir, porque o sonho que não se torna realidade,
Por alguma obra não devia prosseguir.

Mas quando madura eu estiver, e novamente com estes letras me encontrar,
Saberei o que é amor ou já estarei aprendendo a amar.
Por isso, como os adultos que vão para o mar dizem:
(... e o resto não pode ser traduzido ou transcrevido).

Compreendi naquele momento que de sofrimento apenas estou eu, pois
a raposa já ansiava desde primórdios o que vivemos,
a raposa já esperava desde primórdios como morremos,
e a raposa já contentava desde primórdios que os amores vêem e vão,
Mas o que fica é a história.


Mais uma vez, eximiamente emocionado, retornei as anotações para a estante,
Peguei os livros que estavam em baixo e os trouxe para cima na esperança de poder novamente
Ver aquele corpo alvo que tocava as páginas de minha prateleira.
e em fim, a vi.
Pelas costas, vi os longos cabelos ruivos com as pontas brancas caminhando em direção da escada e subindo degrau por degrau. Pude contemplá-la como se contempla uma santa e antes que eu a visse partir, um aperto no peito me tomou conta, e não pude manter a visão erguida.

Rangi os dentes e pendi a cabeça enquanto as lágrimas desciam no meu rosto.

Quando de repente ouvi o batido da porta!
Sim! Esta era a conclusão de que não só um fantasma havia me visitado, mas de que minha raposa ainda estava aqui.

Apertei o peito com o pano e ergui a vista ainda com o rosto suado pela dor para a porta escada acima. e lá estava uma jovem. Completamente diferente do que tudo que eu havia visto.
Não era ruiva, não era rica, mas usava um azul Royal que me manteve a atenção presa por longos tempos.

Em um lapso mental pude compreender que vendo minha raposa subir as escadas, deixei-a ir. Experimentei a sensação correta de que nunca a tive, e que uma hora era necessário deixá-la seguir seus passos.
Experimentei também a dor no peito, que agora sei que representa a perda mas que é necessária sua existência, senão não haveria tamanho alívio depois.
E por fim, pude compreender que a nova visão que tina naquela porta era sim! Em vias de fato uma nova chance de sonhar.




Esta nota é uma forma de creditar os diretos autorais.
As imagens contidas nesta postagem referem se a obra denominada "le scorpion" pertencentes aos autores Enrico Marini (arte) e Stephen Desberg (roteiro). não possuem o fim lucrativo, degradação da imagem do personagem e nem o intuito de roubo de direitos autorais.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

[Cronicas da Taverna] : seria isso anacronismo?

Dos tempos em que ando melhor, toda taverna melhorou.

O lugar (hoje com nova cara) atrai novos bêbados, e novos lucros, e assim vou repondo o estoque assim que os barris secam.
ontem mesmo recebi uma nota que dois barris do Don José Cuervo chegará em breve sendo um em sua edição especial finíssima, e outro com a maravilhosa qualidade com que sempre produziu.

em fim, tudo anda muito bem nesta taverna, até as aranhas que nos tetos hoje tão altos estão com suas teias em dia... estou aguardando o dia em que as duas pilastras do meio se encontrarão pelas teias... aí sim as faço recomeçar novamente.

"engraçado como todo o trabalho de uma vida desmorona"

nesta noite, a taverna seguiu calma. Como é de costume, todos os domingos os marujos se recolhem em seus barcos com medo do famoso "código de bartolomeu" funcionar. e então a taverna fica aberta apenas para os que "esqueceram algo" sorrateiramente aparecerem.

e foi nessa que ele apareceu.

chegou com as mãos nos bolsos e se sentou próximo a janela.
era um moço consideravelmente mais novo que eu ... possivelmente uns dez anos...
alto, cabisbaixo, com a barba bem desenhada, com roupas pretas simples e limpas.

ficou um tempo sentado, mas logo se pôs de pé ao ver as estantes de livros, e se aproximou delas;
andava com as mãos para trás como um urubu se aproximava da carniça. olhava os livros bem de perto como se analisa-se muito mais que as letras douradas escrita nas lombadas dos livros, mas logo se inclinava como se estivesse se recompondo. e então sim se sentou novamente no mesmo lugar.

esperou me aproximar....
pelo que eu disse: - boa noite!
- boa noite, veja para mim por favor um taça de vinho tinto e suave.
- pois bem....

me virei e instantes depois retornei com o vinho que o moço havia pedido.
tão pouco terminei de coloca-lo na mesa, o jovem me indagou:
com licença, (sempre com uma voz um tanto tímida e cabisbaixo) o senhor poderia me conceder algumas folhas de papel e aquela pena que está em seu balcão?

confesso que este é o primeiro cliente que sirvo com um poder de observação tão grande, ainda mais por se assentar tão próximo da porta. por fim, acenei com a cabeça e fui buscar o tal pedido.
retornei com a pena e o bloco de notas e o moço a tomou de minhas mãos como se houvesse pegado algo vital. e com um gesto, maneando a cabeça, me agradeceu, mas nem me olhou novamente... disparou a escrever.

obviamente me interessou novamente a figura do tal jovem que além de observador era instruído entre as letras, o que nunca havia visitado esta humilde taverna, que fiquei a limpar as mesas ao redor apenas para observa-lo a escrever.

ora escrevia pouco, ora se esticava na cadeira, ora bicava a taça de vinho e ora escrevia muito... tal ciclo durou várias folhas até que aparentemente terminou.

não demorou muito e ele até que tomara mais rápido a taça de vinho terminando assim "sua missão". não me esperou ir até a mesa cobrar. fez questão de se levantar, voltar a cadeira para o lugar e a passos firmes e fortes se aproximar até o balcão. perguntou se aceitava qualquer tipo de moeda, pelo que respondi: "sendo verdadeiro qualquer ouro é bem vindo"; e então ele retirou um sactel de moedas de ouro e as espalhou pela mesa. era um ouro muito escuro pois dizia ele ter sido retirado dos locais por onde ele havia viajado recentemente. mas por fim... Era ouro mesmo.

pagou sem me pedir o valor, pois possivelmente já havia observado a tabela de preços e havia o separado em suas bolsas.

agradeci e disse que esta taverna estaria as ordens sempre que ele quisesse retornar (acrescentando o conselho de que aos domingos e segundas a noite eram horas oportunas e calmas de se escrever por aki).

ao que ele me agradeceu cordialmente a recepção. e disse que em breve estaria aqui novamente, pois tal lugar o inspirava.

animado, indaguei para que continuasse a frequentar e subliminarmente questionei o conteúdo de suas escritas.

mas antes que tal curiosidade viesse a ser revelada, ele respondera que era um professor (aqui nessas bandas?) e que estava apenas de passagem.


insisti novamente a saber o conteúdo da escrita para que pudesse aprender algo novo, mas ainda nas escadas e virando-se o tal jovem-professor me disse:

O que escrevo aqui, não são sobre os ensinos da mente, mas da alma.

tomei pela terceira vez outro susto por receber uma resposta tão certeira. mas como ele poderia me conhecer? não havia como instigar mais algum outro assunto com um cliente já a porta, ao que me deu apenas a oportunidade de perguntar quem ele era... mas não havia mais reposta... só uma grande porta fechada.



mas eu sei que ele voltará....

domingo, 15 de agosto de 2010

[Cronicas da taverna] : Das uvas que a raposa roubou



Nesta noite fria que eu estava no cais, um estranho objeto veio até mim.
poderia ser mais um simples objeto e qualquer lixo do mar se não fosse pelo selo pirografado na madeira: destinado a Don Rapouso Ladreau.
De fato ou em fato (ou ato?) este tablado não veio até mim atoa. Sabia eu que este era uma das tábuas que cercavam o vinho que estava no navio quando o mesmo despedaçou-se.
E ele estava a me esperar quando eu chegasse ao cais. Estiquei a perna e com o pé molhado, arrastei-o até mim. peguei-o com a mão (e como tivesse pegado "parte" da minha história em minhas mãos) de certo que o mesmo se despedaçou. Pronto. mais próximo que minha própria vida não poderia ser. (despedaçado pelas próprias mãos). em fim, olhando as cascas boiando entre meus pés, pude contemplar tudo o que vivi nesta (duas palavras eu nao consegui ler.. desculpem...rs.. mas vou traduzir por)Viagem Ímpar. (continuando...) Alguns são sonhos, outros máscaras da realidade, mas tudo é passado. (o melhor, foi...)
Poderia eu ficar aqui a noite toda lamentando, ou reclamando ou viajando, mas não. mas não nesta noite, nesta noite!
em fim, levantei, tampei a garrafa de vinho e decidi viver...


- Escrito em 14/08/2010
por volta das 21:00
em la tavernetta
Santa Teresa - ES

terça-feira, 6 de abril de 2010

[Cronicas da taverna] : Velho mundo Novo

Este é um capítulo confuso de minha vida.

Poderia estar tudo desajustadamente ajustado, mas não. está o inverso. bem contrário mesmo. está tudo ajustadamente desajustado e ponto.
Todas e quaisquer dúvidas minhas sobre o que era, o que não era e o que não é (e possivelmente nunca vai ser) foram sanadas durante esses quase tres meses no mar. Sim, foi lá que eu fiquei só, fiquei junto, abatido, enjoado, esperançoso. foi lá (em alto mar) que eu naveguei... e foi lá tambem, que eu naufraguei...



se eu fosse resumir tudo, passo a passo com a "tal raposa" não seria um diário, seria uma biblioteca, mas não me resumirei a isso, pois este não é o alvo nesta noite em que te escrevo, tão pouco tenho moral para voltar a escrever em vós tão abertamente. Em fim, fica embaixo d'agua o que no naufrágio se foi...

Após embarcamos na cidade do porto, e ter aprendido aquela lição, me coloquei a pensar sobre as lacunas em que não vivi eu na companhia de minha raposa. sobre o muito pensar, acredito eu que isso "atraia" de certa forma "a resposta". Foi quando depois de um dia cansativo de capitania do navio amurruá tomei direção aos meus aposentos (próximo a possivel sala do capitão, que era pra ser minha) e fiquei a pensar em tudo. não tardou muito e minha raposa apareceu lá, diante de mim. com os cabelos ruivos, pele branca e olhos... o que havia com seus olhos? - perguntei eu a ela. pelo que um pouco tonta ou soluçando (não sei) me respondeu. tome isso devolta. deves tornar ao seu mundo. naquele momento não compreendi, estaria sendo dispensando de meus deveres de capitão? estaria eu perdendo a chance de te-la de novo em meus braços? ou apenas... não... isso não. mas seus olhos não eram os mesmos. havia uma coisa nova, forte e muito diferente neles. eu peguei o tal caderno vermelho e todo amassado e fiquei a olhar nos seus olhos...




ao que ela estourou em lágrimas e contra mim grigou: NÃO VAI LER NÃO? É O SEU DIÁRIO!
confesso que não compreendi até segurar o antigo barbante que prendia a capa e as folhas. quando toquei-o, era como se tudo que eu já estivesse escrito nele fosse novo para mim, mas que num passar de segundos eu já hávia recobrado todo o conhecimento. acredito que poucos seres humanos já tenham experimentado tamanha viagem dentro de si.



mas haviam outras coisas a mais que eu não havia escrito. coisas tristes demais para serem verdade. então fiquei a observar as páginas, tentar enxergar as letras, comprender as anotações na verticais...

quando por fim em lágrimas olhei para a raposa e disse: Raposa, minha raposa, o que foi que você fez? - pelo que "aquela mulher" olhou para mim e disse com uma voz envergonhada: - senhor Ladreau, queira nos perdoar, infelizmente NADA disso existiu. o tesouro, o barco a familia, a sua senhora... não estão mais aqui. todos neste barco são atores e atrizes que estão em um local como num espetáculo seu. cujo apenas há um propósito... - subtamente o barco sofreu uma batida de encontro com uma rocha pontiaguda em meio ao oceano (como? sinceramente eu não sei) , mas foi o suficiente para aquela moça bater acabeça no chão e desmaiar. de inicio é claro que eu pensei que fosse mais um dos truques dela (já que se tratava de uma artista), mas logo o sangue não deixou o "blefe" se realizar. desesperado e com a moça no colo, corri para a proa do navio chamando todos. mas já era tarde. o navio já havia assinado o seu fim naquela pedra e muitos homens já boiavam em alto-mar desesperados por causa da bravura das ondas. tentei segura-la o máximo que pude mas apenas vi uma onda muito maior que o mastro do centro estilhaçar o barco como quem desfacela uma palha... me jogando para longe e separando-a de mim, lentamente. aquela ao qual nos últimos dias sonhei ser a minha raposa.

definitivamente o ódio do engano naquela hora não era maior do que a dor da perda de "mais uma raposa". então perdi a consciência e naufraguei....



Quando acordei, estava devolta a praia em que eu partira. tentei listar uma possivel lógica que me traria devolta, mas nada "lógico" me veio a mente. em fim... lá estava eu... novamente. na areia da práia, na estaca Zero. sem o aventureiro alto-mar, na cidade velha, sem a raposa... minha raposa...
A unica coisa que sobrou foi um barril de vinho do porto. que ao ser levantado rompeu-se deixando todo a "sortuda" areia banhada do magestoso líquido. então "tudo era um nada" mesmo!

tentei me levantar mas não consegui. apenas o suficiente para me arrastar até a parte debaixo do cais e descansar na sombra. exausto... e com frio. muito frio...
a noite chegou como num piscar de olhos... (ou teria eu dormido?), quando derrepente consegui cambalear até a parte superior do cais encontrar com um marujo que de lá vinha.
estranhamente o marujo me saudou: olá amável senhor. aceita? ... irc... - ele estava bêbado, é claro... bem... claro que aceitei o rum, o casaco o chapeu e as duas pistolas espanholas que ele levava. não podia deixar passar tão barato assim! confuso entre a furia selvagem de ser enganado e a loucura de pensar que todo aquele lugar em que se vivia não se passava de um cenário, resolvi começar a acabar com todos os "figurantes", um a um. nisto, saquei a pistola e apontei para a cabeça do marujo que no susto recuperou a sobriedade, mas a voz presa continuava a mesma. "pelamordedeusmoço... irc... faz isso não..." puxei o gatilho com o dedão e ele então se ajoelhou e com os dedos cruzados (e a garrafa entre eles) se puna a rezar enquanto chorava num estridente IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII, (folego), IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII... sim, eu ia puxar o gatilho, se não tivesse lembrado da triste cena em que eu (novametne, aspirante a assassino) estava com a espada na garganta do velho fidalgo portugues por causa de uma pergunta que nem ele sabia a resposta...
antes que eu puxasse o gatilho, um grupo de cavaleiros passaram correndo a beira mar. então mais que de pressa eu guardei as armas, eles passaram e então eu vi uma segunda figura. era o marujo que em geral me ajudava no bar quando estava por estas bandas: Jimmy london.



ele se aproximou, abaixou minhas armas e jogou o bebado no chão.
seu olhar tambem era "outro", mas antes que alguma exclamação violenta de minha parte estourasse na cara dele, ele me interrompeu dizendo: por um acaso você tambem é um figurante, ou parte integrande dessa cidadezinha que pra mim mais parece um cenário de ciganos de rua? - Meu Deus! Jimmy tambem havia sido manipulado o tempo todo! é claro que minhas duvidas não mudaram em relação a TODOS, TODOS da vila. Mas o brilho nos olhos de Jimmy não era de mentira, mas de desapontamento por terem mentido para ele tambem. então eramos dois.

feliz como quem encontra o pai, abraçamo-nos fortemente e com os tapas nas costas e um sorriso de alívio perguntei: e ai? quantos ja matou? ele colocou a mão na barriga e disse: das suas garrafas de tequila lá da taverna? já foram 8.... - tá ele não entendeu o que eu perguntei, mas, tudo bem. pegamos a garrafa do marujo e nos sentamos a beira do cais. Jimmy ainda continuava atonito com as movientações mesmo no cais, que era o lugar mais calmo da vila.

- Poxa Jimmy relaxa! - era claro que eu já estava cheio de rum para soltar uma dessas exclamaçoes.
- não Sr. Rapouso, é que devemos tomar cuidado com esses homens. foram eles que tomara todas as coisas da sua falecida esposa, incluindo castelo, terras, criados, animais... até sua taverna foi interditada.
- O que? interditada?
- exatamente. é isso que eles disseram que iriam fazer hoje a noite.

bem, é claro que o assunto não ficou só nisso. Jimmy me passou um breve relato de tudo que a conteceu nos ultimos tres meses por aqui. contou-me tambem que esses novos nobres haviam sido arregimentados por um rei cujo objetivo era enfraquecer a vila e governa-la, me fastando uma vez que havia outras partes de heranças para mim. Me disse tambem que essa armação parecia ter muito mais coisa do que imaginava... bem enquanto ele falava essas coisas eu é que imaginava esse grupo de artistas que morreram no barco comigo.

bom. dotado de pouco a mais de rum... dei um tapa em minha própria coxa e disse: bem... agora é hora de retomar o que é....MEU!

Jimmy foi comigo, mas a meu pedido não o fez nada. chegamos lá na hora certa. estavam terminando as ultimas tábuas.



dois tiros e uma espada suja de sangue foi o saldo real desta noite. arranquei as tábuas no chute e abri a antiga e pesada porta... nada mais havia lá em baixo. desci, e jimmy me seguiu. antes que ele disse qualquer coisa eu olhei pra ele e disse: SSSSSSSHHHHHHHIIIII... silencio. dei um "toc toc" na pedra, e saquei o alçapão falso onde escondia meus diários.



Jimmy até entendeu a questão de esconder uma coisa pessoal, mas uma coisa que toda uma tripulação leu, se eles quizessem, eles poderiam voltar você e fazer o que quizerem. é claro que Jimmy Não sabia da natureza do diário e nem que o mesmo desponta um conjunto de documentos, provas e assinaturas do que me dão acesso único e exclusivo ao banco como um todo. daí o perigo de eu ser caçado até pelos Pais dos outros nobres.

da noite que passei ali naquilo que outrora fora uma taverna, pedi a ajuda de Jimmy para que organizasse e limpasse a taverna. os assoalhos foram arrancados, fazendo da taverna uma entrada muito mais parecida com uma masmorra, dependendo assim de descer as escadas para uma espécie de porão, mas lá já era a taverna.

neste antigo "porão" ficavam os livros que a raposa (a verdadeira) me deixou de presente, com os cadernos vemelhos que seriam meus diários e a coruja qeu lá vivia entre umas folhas rasgadas. como tudo já hávia "visto a luz do sol" não havia problema levar a taverna para baixo.
Tudo estava pronto, enquanto isso eu avaliava os nomes, contatos e porçoes à receber escritos nos diários.



passado algumas semanas... numa certa noite, me encontrei com Jimmy e lhe pedi que me seguisse pois precisava de proteção e a juda. é claro que Jimmy disconfiou que eu estivesse paranóico, mas tambem não é pra menos. bem... algumas quadras vila a dentro, e batemos numa pequena porta de madeira de onde saiu um velho com um pouco menos de um metro e meio:

-posso ajudá-los?
-sim, eu sou D. Rapous.....
-Ah sim, "o viuvo" não é? achei que não viria mais buscar sua quantia!

definitivamente eu estranhei a ação do velho, mas como se tratava do mesmo assunto que o motivo da minha visita, não liguei para asperosidade em que fui tratado. ao que o velho disse:

-entre e pegue! esse moço tá com o senhor?
-sim... entrei a passos largos na casa em direção as sacos no fundo da sala.
-então fale para não pegar os sacos com serragem, só os com as pedras...

Ri um pouco da "desgraça" de jimmy, mas o mesmo não compreendeu novamente a piada e levou 4 sacas com as "pedras" para mim, eu apenas duas e já estava exausto.

Não é necessário notar a obviedade que as tais heranças da raposa eram pedras brutas, mas puramente preciosas. os verdes olhos de jimmy olhavam para aquele rubi como um lobo olha o cordeiro... então eu disse:

-não é belo o qeu vês?
-si..sim!
-então meu marujo! levai! é vosso!
-não Sr. Ladreau... eu não poderia... - nessa hora tive que apelar...
-Se o Senhor não leva-las, vou estilhaça-las na rua...
-pode faze-lo! não são minhas!... - desanimado pensei na ultima tática.
-tive uma idéia Sr. london! tome conta delas para mim! "faça mais delas" aparecerem e ai estaremos ambos bem! - um sorriso despontou-se debaixo daqueles bigodes ruivos e o gigante marinheiro deu um tapa na mesa!
- Perfeito D. Ladreau! perfeito




tambem não passou muito tempo e jimmy multiplicou todo o investmento que eu havia "doado" para ele e ele mesmo não o sabia.
numa tarde, andavamos a cavalo e ele me perguntou quando eu viria para governar aquela terra. eu disse que não era mais minha, ele triste pensou que teria que deixar um local que a muito cultivou com tanto carinho. mas um sorriso lhe saltou os olhos quando eu lhe entregara a escritura de todas as minhas posses adquiridas através da herança de minha estimada raposa.

"não é isso que eu quero Jimmy, é apenas uma vida simples, na taverna, servindo, ouvindo, bebendo, limpando..." é exatamente isso... talvez nem com a raposa eu daria certo hoje em dia. (subtametne me deu um estalo na cabeça....) não me senti muito bem, e disse que retornaria ao haras. deixaria o cavalo mais cedo... mas que era para ele aparecer na taverna qualquer hora para degustarmos um pouco dos novos barris que chegaram lá.



a noite se aproximou e então eu me dirigi para "A TAVERNA DA RAPOSA". As ruas fétidas como sempre ambientavam aindan mais o sombrio clima em que rondava aquele bar com seu possivel aspécto de masmorra. me aproximei da porta para abrila, mas logo na portinhola vi luzes acesas. pensei no pior; abri a porta e a taverna lá em baixo já estava cheia. homens, mulheres em busca da mais pura farra! quando me viram lá de cima, com o sobretudo e o chapeu triangular se colocaram de pé, limparam os bigodes com as mangas e se poram a aplaudir como se tivessem visto um Rei.



Confesso que nao entendi, na verdade acho que comecei a entender, quando olhei para o balcão e vi a gigante figura ruiva lustrando o fundo de uma caneca com um pano.

Tudo prosseguiu normalmente durante mais uma "noite na taverna". mas uma figura me chamava a atenção. era uma mulher linda de cabelos escuros cacheados e de pele morena.
Enquanto eu servia as mesas, cortejava-me com os olhos, e eu por um sentimento cavalheresco, a retribuia reclinando a cabeça. não tardou muito e ela se dirigu a porta...
lá em cima eu fui apenas dar as boas vindas da taverna e deixa-a a vontade, quando subtamente fui surpreendido por um beijo que me retirou os pés do chão.
e ela (em seguida) saindo correndo disse algo que eu não pude entender.



bem... algo estranho acontecera comigo, sentia-me bem, mesmo entrando na taverna "DA" raposa. pois hoje em dia não há mais nada dela, o que há aqui são as memórias. jamais apagadas, mas são memórias, passadas, que tambem ficaram para trás assim como as que estão no fundo do mar.



respirando mais leve fui até a balcão para contar para Jimmy do acontecido, que por sinal tambem me recebeu muito bem. tudo estava bem e a taverna bem cheia, quando de relance pensei ter visto minha raposa sentada no fundo entre as mesas mais reservadas com o chapeu e triangular e evitando me olhar... tive a sensação : "de alguma forma eu sei que ela ainda está lá. me olhando..." mas, uma caneca de cerveja holandesa passou na minha frente e persebi que era apenas uma visão minha mesmo... esfreguei os olhos e levei a caneca a mais um cliente!



----- * * * -----

UMA NOTA DO AUTOR: Aos que me conhecem, sabem o quanto tenho minha vida ligada a arte de uma forma geral. Não que eu seja profundo conhecedor dos traços de davinci ou perseguidor das esculturas de miguelangelo, ou tão pouco dos mais belos textos de shakespeare. Mas, de um jeito singular estou ligado ao "expressar". privilégio este que já me conferiu a honra de ser volcal de uma banda, ou participar de teatros ou oficinas de criação. Atualmente me realizo profundamente com o dom de narrar histórias sobre os sistema de RPG para um grupo de amigos que tenho a honra de considera-los "matilha". mas ainda havia algo que eu mesmo me privei... O escrever. no erro de considerar todo exemplo o mesmo e inexplicavelmente igual em todos os casos, deletei este blog, mas depois de um tempo descobri que não hávia excluido-o definifivamente (uffa). com todo carinho a criação dos contos e desbafos desta vida, retomei a escrita na qual coloco o coitado D. Rapouso Ladreau em certas "frias" ou devaneios depressivos mesmo.
De fato não poderia negar nunca que há um pouco de Rene William na figura de D. Rapouso... certo... há MUITO de Rene na figura de D. Rapouso. mas apenas fique com a minha dica: não tente encaixar os fatos, não tente encontrar os personagens andando por ai na vida real ou se relacionando com o autor.
É de "quase" conhecmento geral que a Raposa é a musa inspiradora do Sr. Ladreau, e nem por isso hoje (eu, Rene) estou com a mesma pessoa de quando comecei a escrever os contos.

para ser mais claro, prefiro Plagiar meu amigo Folha-de-outono quando se refere a "par-perfeito" no orkut:

par perfeito:A quimera que vive em meus sonhos, com retalhos das várias mulheres que conheci em minha vida. Uma criatura ideal e perfeita, que só existe dentro de minha mente e no plano ideal, onde de lá não pode sair sem arriscar sua vida ou meu apreço. Ela vive só para mim, eu vivo só para ela; feita com costuras e remendos, e de traços únicos, é minha equação perfeita que completa.

Não espero que comprendas o que eu disse, apenas queria deixar o meu recado!


Esta nota é uma forma de creditar os diretos autorais.
As imagens contidas nesta postagem referem se a obra denominada "le scorpion" pertencentes aos autores Enrico Marini (arte) e Stephen Desberg (roteiro). não possuem o fim lucrativo, degradação da imagem do personagem e nem o intuito de roubo de direitos autorais.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

[Cronicas da taverna] : O primeiro porto

31/12 - 20:00

A pedido da Rainha sou buscado em casa e levado de carruagem as pressas para o palácio. Sabia que havia uma explicação da parte dela depois de tanto tempo.

A carruagem parou e eu saltei. Na porta já estava um criado-mor (daqueles que ficam por perto. possivelmente um "capado" rs...). Ele me disse que a Rainha havia me chamado, mas, por motivos pessoais pediu que adiasse qualquer pronunciamento. De certo isso apenas aguçou ainda mais minhas dúvidas e as interrogações passavam completamente em minha cabeça.
Como todo meu carregamento já estava pronto e aos pés do palácio, os lacaios o levaram para dentro do navio. O horário se aproximava e eu ainda na porta do palácio. Aflito que só, pois era o capitão do barco em que minha Raposa (agora mais viva do que nunca) estaria nele. E eu aqui em terra firme, já devia estar lá esperando ela.



Depois de um tempo, precisamente as 23:30 sai uma carruagem de trás do grande palácio aos galopes. Pára em minha frente um cocheiro completamente desajeitado desce e abre a porta para mim. Pelas gotas de suor no rosto dele pude perceber que a carruagem nada mais era do que um gigante porta-jóias e não havia nada mais precioso no mundo do que o que havia lá dentro...
Lá estava, a raposa, lindamente vestida de negro para dois grandes eventos: a virada do ano, e a partida do navio.
Entrei na carruagem e sentei-me de frente a ela. Seus olhos estavam turvos e eu não os conseguia definir. Tentei me iludir sobre a desculpa que os muitos anos que não a via, por isso a perda do "tato", mas acima disso eu sabia que havia um problema.

Chegamos no porto e o semblante dela mudou. Um largo sorriso tomou conta de sua face e com um firme passo de longas botas desceu da carruagem em direção ao público que a aguardava. Até aí tudo bem. Uma rainha e seus súditos, quando de repente, ela estendeu a mão para dentro da carruagem (gesticulando para que eu saísse)... Estranho... Os papéis estavam invertidos... Rs... Parecia eu uma dama ao sair da carruagem “aparada” por ela. Mas sem segurar-lhe a mão, sai da cabine com o semblante fechado. Não era raiva, nem rabugice, apenas não estava acostumado com tal pompa.
No pequeno cais, todos jogavam confetes e flores para onde passávamos e aguardavam ansiosamente a virada do ano. A raposa pediu que eu me dirigisse até a proa do barco onde havia uma garrafa de vinho amarrada a uma corda e a corda num dos mastros.
O gigante relógio da praça matriz marcava 23:57, todos estavam apostos nos barcos e alguns já haviam partido por ordem dela.
Quando o relógio marcou 0:00 ouviu-se o primeiro badalar do sino, então a raposa gritou: "Capitão! batize o barco agora!" não me veio outra frase na cabeça a não ser um trecho de uma bela canção que meu pai cantava para minha madre. Peguei a garrafa amarrada na corda e choquei-a de encontro ao mastro! A garrafa se espatifou e o vinho desceu manchando com um belo rubro o convés. Ao que abri os braços e gritei: Serás chamada "amourroi" (pronuncia-se amurruá), e então todo o povo aplaudia e gritava em meio aos fogos chineses e votos de ano-novo.

No barco também tudo era festa! Um primeiro "empurrão" e o barco começou a esticar seus primeiros nós de distância. Estávamos muito perto, e no primeiro chacoalhão ela tropeçou numa das cordas e veio para cima de mim. Obviamente a segurei. Sinceramente melhor fosse deixá-la cair no chão. Pois com tamanha rispidez que fui "agradecido" pensei mesmo no fato. Mas, não podia, nem se eu quisesse... Afinal, era ela. Segundos depois ela se recolheu para o quarto "que devia ser do capitão" e me disse: "quanto aos seus aposentos, deve haver algum lugar para você. o barco é grande! Não é? (ironicamente)" até aí tudo certo. Só não esperava que fosse exatamente ao convés.
Tomei outra direção de comportamento e deixei a moleza de lado!
"AO TRABALHO HOMENS! QUERO VER ESSE BARCO COM TODA A VELOCIDADE! você! pega aquela corda, você! abaixe mais a vela, vocês aí, preparem os remos, hey garoto! mais atenção nos nós! timoneiro se você vomitar vai andar na prancha! eu juro! (...)

Navegamos bem segundo as cartas marítimas e as ordens que recebi. tudo estava muito bem, com exceção da raposa, que a carne e os ossos diziam ser ela, mas havia um brilho diferente nos olhos que eu não sabia como comportar, como fazer, como dizer...

Hora olhávamos e eu a via me inspecionando, hora olhávamos e eu a via me observando (como alguém que põe outro a prova dos ditos). Hora olhávamos e ela desviava o olhar. hora olhava-a e ela estava a fazer charme. Mas de alguma forma não havia como chegar. Ou até havia, mas não para o que eu queria, apenas para compartilhar coordenadas de mapas e só ouvia o tradicional: "faça o que achar melhor, capitão". Isso não era justo. À noite, me colocava a escrever no diário sobre os balanços da embarcação (talvez note o horror da letra, mas são apenas os vai-e-vem do alto mar). tudo até bem. estava melhorando com a letra quando no meio da noite ela apareceu por de trás de mim...

Eu parei de escrever e fiquei a observar... ela estava descalça e com um camisão que cobria todo o corpo. todos os marujos já estavam deitados no porão. não havia mais ninguém por lá.
ela caminhou até o mastro onde estourei a garrafa e pegou um caco do casco do vinho. e olhou o rótulo... olhou para mim... olhou para o rótulo... aproximou-se do mastro e cheirou o aroma do vinho ma madeira... caminhou lentamente até mim, e colocou o rótulo (já sem o caco de vidro) no meio das páginas do meu diário.
eu continuava boquiaberto com a situação sem entender nada... fechei lentamente o diário e me virei para ela enquanto adentrava seus aposentos... me levantei para perguntar e antes que eu dissesse algo, ela parou, olhou para trás e disse: será nossa primeira parada.
Seguimos uma semana.
Foi uma ordem tão clara que eu não tinha mais o que dizer. Ficava sem graça ao me referir a ela, com receio de levar um "já não lhe dei a ordem?" muito embora, sabia vez em quando que ela mesma queria dizer algo a mim, mas de alguma forma não se aproximava. Vez em quando eu a via com a ponta dos dedos tampando os lábios (como quem diz: quero dizer algo...). Mas nada falava.
Seguimos mais uma semana.




Os mapas portulanos nos guiavam por um estreito porto ainda na costa do velho mundo onde ela estava destinada a aportar. Avistamos um velho cais aos trapos com luzes fracas e uma pequena vila com uma só rua e beira-mar. aportei o barco a um nó de distância do cais e guiei o pequeno barco até a terra firme. Lá estava-mos: eu , Jimmy (o marujo que as vezes me ajudava no bar) e ela, a Raposa. Era estranho e engraçado. Ela passeava naquela pequeníssima vila como alguém que caminhava no grande mercado marroquino. Olhando todas as placas e formas das casas.
nada lhe chamava mais a atenção do que uma pequena casa cuja calçada já era feita de madeira e já emendava com o cais. A casa já era parte do porto... A casa era o porto.

paramos em frente à porta e ela ficou a esperar. Bem... Eu e Jimmy também... Pensávamos que algo "diferente" iria acontecer. Como nada aconteceu (e nem iria mesmo) ela respirou fundo e abriu a porta com as próprias mãos. Notei que "um ponto de cavalheirismo havia sido descontado em minha conta". Ela adentrou e nós atrás com o lampião até os fundos onde um senhor de idade avançada e de longos bigodes fazia as contas junto a uma longa mesa.

- boa noite senhor - me adiantei...
- já estamos fechados!
- mas, eu não perguntei isso! a rainha deseja adquirir uma significativa porç...
- bla, bla, bla já diss que estamos a estár fechados! não viste?
Empunhei a rapieira ainda na bainha, mas subitamente fui impedido por ela com a mão no fim do cabo.
-com licença senhor Antonio, não se lembras de mim?
-oh! Sim... Senhora! a quanto tempo?! - o senhor deu a volta por de trás da mesa e lhe desferiu um abraço como um parente muito mais velho...
Eu e Jimmy nos olhamos estranhamente (como quem pensa: quem é ele para se atrever abraçar uma rainha?). Maior susto foi quando eu a vi retribuir o abraço. Abraçava-o como um avô ou tio que a muito não via...
- mas então? o que a trás a est utilmd estabelecimento? Vieres tomar nota se tudo está correcto?
mais uma vez me assustei: outra taverna dela? Meu Deus... Nessa hora eu me senti mais um no mundo... Apenas mais um... Reles e fraco taverneiro de uma rainha... Que sentimento triste...
-não! - respondeu ela... - não seja bobo Antonio, sabes que esta taverna é sua! Que é um presente da família! Afinal se não fosse o seu vinho... Minhas tavernas jamais existiriam...

Nessa hora eu pensei: Ai meu Deus... Um grilo vai pisar em mim... (quão pequeno sou). Ela olhou para mim e compreendeu meu sentimento. Não sei se para amenizar ou não, mas ela disse algo que me deixou ainda mais de orelhas em pé: “fique em paz senhor Antonio, estive um bom tempo fora, mas foi por uma boa causa, tudo ruiu tudo levantou. nada é em vão. das tavernas que sobraram, as únicas que posso ver que estão ainda de pé são a do meu condado (que eventualmente é a que eu tomo conta) e essa preciosidade aqui, que eu tenho a honra de beber o bom vinho!
o velhinho soltou um belo sorriso debaixo daquelas bochechas rosadas e daquele bigode, pegou as mãos dela e disse: vamos lá em baixo. preparei uma reserva especialmente para você. ela sorriu, respirou fundo e aspirou com um tom de cansada. Disse que precisava ir para o barco pois não se sentia bem. O velho concordou também como alguém que já conhecia seus atos.
A raposa pediu ao Jimmy que fosse até o barco com ela (pelo baquinho) e voltasse para buscar o capitão e o carregamento.
Sinceramente é muito estranho quando a mantenedora da embarcação evita diálogos com o capitão da mesma... tudo muito, mas muito estranho... mas agora não é hora para isso, pois o português já havia aberto o alçapão e me chamado duas vezes lá para baixo.

Em fim... Desci...




Que imagem! é de encher os olhos... se eu pudesse eu levava tudo! rs...

- é bonito não é? - perguntou o senhor lusitano.
- bonit... (eu de boca aberta...) imaginem o cheiro da uva fermentando naqueles gigantes barris de carvalho... meu Deus .. que viagem... era outro mundo... no velho mundo... Imaginem o novo mundo...
Subitamente algo diferente pairou em meus olhos...
Bom... agora que estávamos só eu e Sr. Antonio, poderia fazer qualquer pergunta que eu quisesse a respeito da Raposa, assim conseguiria mais histórias sobre "as muitas tavernas" dessa mulher. (já estava a tratá-la assim...).
Então senhor Antonio... (enquanto destravava o barril e o rolava em direção dos trilhos da saída...)
-essa generosa senhora possui mais tavernas por aqui?
-olha... eu acho que sim... por que não?
(pensei eu: eu sabia... em cada um ela tem...) - subitamente continua o Sr. Antonio...
por que ela já ajuda tanta gente... Nossa família estava deprimida e falida, a duas praias daqui havia um povoado que dependia apenas de tecelagem... Sem contar num tal chá que ela encomendava para um tal índio.... Mas taverna, taverna... Eu não lembro...
“puff... Eu sabia que aquele velho já estava brincando com coisa séria demais... estava escondendo informações...”



Saquei a espada e apontei na cara dele: escuta aqui seu velho! não me esconda nada, você não conhece quantos essa lamina já atravessou por causa de conversas pela metade...
- o velho começou a chorar e pos-se de joelhos... era uma visão deprimente que a muito eu não via...
- pelo amor de Deus, meu senhor, sou apenas um pobre homem que sustenta a família com essa vinícola para a jovem e generosa senhora que esteve aqui a pouco. não vejo justiça nenhuma em terminar com a vida de quem sustenta outras 6 bocas. Tudo o que faço é ceder vinho do porto para essa jovem para que ele chegue até certa taverna.
Apertei a ponta da espada no pescoço do velho e ele urinou...
DIGA! DE QUEM É ESSA TAVERNA?e o velho só gaguejava...
“lá estava eu, transtornado, ameaçando um velho vinícolo por causa de uma coisa que eu havia criado na minha cabeça por causa disso tudo.”
“o velho balbuciou as seguintes palavras: meu senhor perdoe-me, mas tudo o que sei é que ela sempre veio aqui e que ficou apenas dois meses sem aparecer. ela sempre vinha e levava alguns barris para uma taverna que ela dizia ser dela, mas que era o grande amor da vida dela que tomava conta com muito carinho e tinha que descarregar de noite no cais antes que um tal de D. Rapouso aparecesse. Novamente meu senhor, se o senhor tem algo contra este tal dom Rapouso , peço que busque-o em outro lugar pois aqui não temos nenhuma informação sobre esse senhor. só sabemos que ele é quem tem o coração desta jovem. Perdoe-me a franqueza, mas se desejas dar cabo dele deves procurá-lo em outro lugar.
Como eu poderia ter feito tudo isso? eu aqui desconfiando de um alguém que na verdade era eu mesmo! Como pude fazer tal atrocidade?
Não havia como me desculpar com tal crueldade na qual eu pratiquei. apenas recoloquei a espada na bainha e o ajudei a levantar. o velho não entendeu. eu numa postura seca e fria disse: não é preciso ir muito longe para encontrar o D, Rapouso que quero matar(-me).
Já estava na portaria, Jimmy que sem entender nada, entrou mudo e saiu calado com o barriu nos braços. Na minha cabeça, um milhão de coisas rondavam: como ela sumiu? sumiu por tantos anos pra mim, e para esse velho só 2 meses? MEU DEUS era ela que deixava vinho do porto todos os meses no cais para mim e eu duvidando dela... a vontade era que essa espada estivesse em meu pescoço agora... eu só daria um passo...
Voltei para o barco com os 4 barris e os marinheiro ajudaram a subi-los...
um foi para a tripulação e se misturou com os outros que estavam no porão, 3 foram para "a cabine".
Era sábado e todas as minhas coisas estavam no convés ainda... quase um mês no mar. Ela saiu e disse: "pegue sua melhor roupa, e a taça de cobre." (opa! como ela sabia da minha taça de cobre?)
Pois bem... Fui até lá e peguei. Ela me chamou para entrar nos seus aposentos.
e lá estava eu. Sentado numa cama e ela numa cadeira de frente para mim. Os marinheiros estavam nas janelas doidos para ouvir a conversa e todos com os copos de vinho na mão.
A raposa estava com uma taça e me olhava o tempo todo, eu, apenas bebia.
bebi apenas aquela taça durante um bom tempo e então me levantei e perguntei: por quê? Quando? Quanto tempo? Desde quando? O que existe? Você aind....



ela se levantou deixando a taça caindo no chão e me segurou pelos cabelos e me beijou...
fui beijado e beijei. Oh deus! A quanto não sentia aqueles lábios? A quanto não sentia os meus lábios. Beijei também. Mas antes que houvesse uma entrega conjunta. Ela me empurrou me fazendo deitar na cama e se afastou, pegou o copo, serviu de mais vinho do porto e disse:
O vinho do porto sempre lhe terá um preço muito caro, meu Rapouso. Duvidaste de mim. Eu sempre estive perto e você em mim. Agora comigo por perto, colocaste as piores coisas que destroem um ser: A dúvida a frente do amor. Por isso, aprenderá muito: por mim devias ter ficado na taverna para sempre sem me ver. Assim me amaria sem estiar. Aprenderá a linguagem da taverna: o vinho do porto é caro, é único e doce como o amor. Mas não deve se levar ao extremo, pois lhe tira a cabeça e depois o coração. Que o senhor Antonio tenha piedade de ti no dia do seu julgamento.



Ouvi tosses do lado de fora da cabine.
Muito triste fiquei, olhei abaixo, não conseguia levantar os olhos. Eu o capitão...
pedi desculpas. Ela sabia que isso não era eu. Por isso me atrevi a fazer mais uma ultima pergunta:
-sabendo que fiz tal atrocidade por que me beijou?
-porque te amo e não te esqueci nunca....
-então... (com um facho de esperança na alma)... quis perguntar “por quê?” mas...
- ela apenas me olhou junto ao vinho e disse: deve haver ritos....




Esta nota é uma forma de creditar os diretos autorais.
As imagens contidas nesta postagem referem se a obra denominada "le scorpion" pertencentes aos autores Enrico Marini (arte) e Stephen Desberg (roteiro). não possuem o fim lucrativo, degradação da imagem do personagem e nem o intuito de roubo de direitos autorais.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

[Cronicas da taverna] : Um novo mundo

Do tempo em que a taverna ficou fechada, nada aconteceu.

Os devedores não pagaram.
Os que se diziam amigos não voltaram.
Os violeiros não tocaram.


Nada, nada mudou. Foi quando Ladreau sentiu uma tristeza profunda e pensou no quanto preparou tudo para todos e ninguém apareceu. A taverna era para eles.

Taverna sem músico não é taverna.
Taverna sem fiado não é taverna.
Taverna sem os camaradas que vivem do bom vinho e rum... Não é taverna...

Não é taverna...
Não por hora...

Já se passavam meses e tudo o que se falava na vila era sobre uma notícia que viria com a virada do ano. Obviamente viria muito mais fácil e rápido para D. Rapouso. Afinal uma taverna é sempre um lugar de conversa... Mas não lá... Não naquele lugar... Vazio, e sozinho.

A taverna o havia esgotado, e transtornado, e mudado, todo e completamente quem era a figura de D. Rapouso Ladreau!

Seu passado, sua essência, sua visão de futuro seriam as mesmas, mas algo o transtornara.
(imagem enfadada).

O fim do ano se aproximou e alguns carregamentos de pólvora da china foram deixados no cais para as festividades. Outros barcos também atracaram trazendo por um curto período de tempo seu velho amigo e marinheiro Jimmy.

O gigante ruivo lhe contou, que as especulações do "segredo da virada do ano", estavam com a rainha da castelania próxima a vila e que a mesma estava a recrutar marujos para a tal descoberta.



Subitamente Ladreau se lembrou do gosto da brisa e do tempo em que passou em alto mar. do tempo em que ingressou como amarrador de cordas, que depois se tornou timoneiro, e depois nomeado corsário e em fim pôde deixar o mar sobre o nome de CAPITÃO!




"Capitão Rapouso! o que faremos agora?"
Essa era a pergunta que ele sempre se recordava quando a noite o embalava dentre uma tempestade de sonhos... Acordava suado, passava a mão na testa, voltava a dormir e conseguia se livrar da tempestade. Isso era tudo o que conseguia guardar do mar. (e esse segredo ficou com ele...)


Então pensou Ladreau: que mal fará se a “Raposa for fechada” por causa do Rapouso?

Passou-se a noite.

Rapouso de manhã. As 5:00 pôr-se de pé encaixotou os livros e o diário, pegou a taça, colocou a rapieira no cinto. Amarrou os cabelos e se dirigiu até o palácio.

Ao chegar pensou consigo: como sou tolo! Qual rainha estaria de pé tão cedo? E de fato nenhuma faria tal proeza... rs...

Rapouso esperou até as 7:00 quando as atividades oficiais começariam... Estranhamente estava tudo bem escuro...



“Um” almofadinha com um colam muito engraçado (imagem rspouso e o papa) apareceu na sacada e disse que os marujos que quisessem se ingressar deveriam comparecer a sala do trono.



Obviamente Rapouso estranhou... Mas tudo bem... Cada realeza tem um tique diferente.

Cansado, e fedendo rum... (como era o seu comum) Rapouso se dirigiu até a sala do trono numa gigante fila. Olhando para baixo e aguardando à hora de apenas anunciar seu nome, esperava que a rainha lhe concedesse a benesse de ajudar com os preparativos marítimos para "o segredo da virada do ano"... Quando de repente:

Ouviu um soluço da parte da rainha. Não ousou olhar Para frente com medo de uma repreensão. Continuou cabisbaixo.

A rainha soluçou novamente. (não era um soluço comum)

Rapouso não olhou.

Quando um dos serviçais disse: deves olhar para a rainha!Ela quer conhecer todas as faces que executarão seus desígnios...

Rapouso levantou a cabeça...

O QUE! (Rapouso não pode deixar de soltar tal exclamação) quando viu a jovem majestade com vestes azuis e uma venda sobre os olhos (imagem a raposa com venda nos olhos) nada deixando parecer... Mas uma coisa lhe chamou a atenção... Eram os cabelos ruivos... Não seria? seria? Meu Deus, como se parec... É ELA! Mas não pode... ela já se... Mas, não a vi partir.... Se fosse ela.. Por que isso? Por que passei por isso? Por que esse tempo todo? CRISTO POR FAVOR ME DIGA QUE NÃO É ELA! DIGA-ME QUE É ELA!

Confuso Rapouso, encheu seus olhos d'água, pois por um momento a esperança o havia tomado nos braços novamente.

A rainha se inclinou para e esquerda e se dirigiu a um dos seus guardas falando baixo. E o guarda repetia em voz alta:

-É O SENHOR, DOM RAPOUSO LADREAU?
-sim, majestade...
-SABES POR QUE ESTÁS AQUI?
-de certo, majestade. Pretendo-me ingressar na expedição ao qual vossa majestade arrenda marujos.
-SABES QUE POR ESTAS VILAS NÃO SE SECONHECE VOSSAS HABILIDADES COM O MAR, EXCETO COM A BEBIDA DOS MARUJOS.

(Rapouso corou-se de vergonha, mas disse) - sim
-majestade. Entretanto...

-SILÊNCIO! (gritou o guarda em mandato da rainha). A RAINHA CONHECE TODA E QUALQUER ARGUMENTAÇÃO. POR ISSO...

(Rapouso já estava a respirar fundo por perder a últitima e única chance de re-ver o mar... e triste já se contentava com a infeliz e solitária vida na taverna...)

A RAINHA LHE CONCEDE O POSTO DE CAPITÃO PARA A ÚLTIMA NAU QEU SAIRÁ NO DIA 31/12 AS 23:59 DE ACORDO COM O RELÓGIO DA IGREJA DA PRAÇA DA VILA PRÓXIMA.

(Rapouso não sabia mais o que fazer ou pensar, era tanta alegria que em seu peito que novamente batia, que nem sabia o que fazer com toda aquela velharia da taverna ficaria para trás!... na verdade sabia... ficaria pra trás!)

Ele nem sabia mais como se portar... Quando...
O guarda continuou.

- A RAINHA ORDENA QUE ESTEJAS TRAJADO SOBRE NEGRO POIS, DESEJAS PASSAR O ANO DESTA FORMA.

- perfeitamente!

Com um coração cheio de graça, ia saindo Rapouso de frente para a rainha, quando a rainha lhe fez um "tsk"... E pôs-se de pé e disse: desejas acrescentar algo Monsenhor Ladreau?

[a voz... era ELA!]

Dom Rapouso Ladreau apenas sacou sua rapieira em sinal de Devoção e disse:






Esta nota é uma forma de creditar os diretos autorais.
As imagens contidas nesta postagem referem se a obra denominada "le scorpion" pertencentes aos autores Enrico Marini (arte) e Stephen Desberg (roteiro). não possuem o fim lucrativo, degradação da imagem do personagem e nem o intuito de roubo de direitos autorais.











Caros leitores,

De certo, os que acompanham esta taverna sabem que muito da mesma há em mim ( e que mudanças são necessárias). por isso D. Rapouso Ladreau parte novamente para o mar. um mar de aventuras e descobertas que não sabes onde seu barco dará. Apenas sabes que tudo é uma questão dos laços que dará em suas cordas e que é seu dever mante-los presos sempre!!!

seu destino? UM NOVO MUNDO! um bravo e NOVO MUNDO!


que todos tenham um feliz ano novo assim como eu!
-Rene William

sábado, 26 de setembro de 2009

[Cronicas da taverna] : Pensamentos do farol

Das poucas vezes que fechei a taverna, essa foi uma delas.

mas não foi para visitar o porto (embora estivesse tão perto para faze-lo),
tão pouco para encontrar um velho amigo (embora não tenha um por essas bandas, mas sempre há uma oportunidade para isso), em fim. Foi tudo isso, mas foi diferente.

Toda vez que eu ia buscar os barris de rum no fim da tarde no porto, me deparava com a figura do farol, robusto, na beira do penhasco. sempre ali pelas 18:00 horas ele ligava (exatamente com o primeiro bater do sino da capela na praça).... e isso me instigava.
como já estou a um bom tempo por aqui e o populacho dessa vila não passa de 3 mil pessoas (isso chutando alto), pre-suponho que quase todos já passaram por aqui. (vide as histórias anteriores), mas nunca um sinaleiro deu as caras nessa taverna... e estava ai outro ponto que me chamava a atenção.
mas o que mais me incomodava e me contorcia as entranhas a cada momento era acerca do imaginário que trabalhava a cada momento montando a imagem do sinaleiro.

"ah! deve ser aquele velho asqueroso bem rabugento!" ou melhor "deve ser um marinheiro sem as pernas por causa de um tubarão" na-na-não "deve ser um velho arqueroso bem rabugento, ex-marinheiro, sem as pernas por causa de um turbarão!" isso! é isso que eu vou encontrar ao chegar lá em cima! dizia isso a mim mesmo ao pautar sobre o assunto do sinaleiro : "poxa! eu não conheço ninguem aqui!, esse sinaleiro, eu nunca vi ele por essas bandas... bom. dois desconhecidos podem ser amigos! né? o,O" então vamos lá!

Esperei a semana toda, e nesse domingo me arrumei. coloquei uma garrafa de rum enrolada num algodão crúe a marrei a ponta da garrafa com corda de marinheiro (para ele assimilar o presente) e alí pelas 18:15 me dirigí ao farol.

foi uma longa caminhada pois o caminho já não mais existia e as pedras haviam tomado conta... (como elas foram para alí eu não sei!). demorou muito tempo até que eu me encontrasse no pé do farol... na porta havia algo escrito de lapís bem fino. aproximei a lanterna e então pude ler: "aqui, o silencio do vento reina..." tava na cara que ele não era de fazer barulho... e nem dava... pois daqui não se ouvia nada da cidade graças as ondas quese chocavam com a rocha... em fim...
abri a porta e comecei a suber as escadas... degrau um, degrau dois degrau tres... vinte, vinte e nove, quarenta e cingo, oitenta... (minha nossa isso não termina nunca)... cem, cento e oito degraus e eu vi a luz bem de perto.... hávia uma anti-sala abaixo do farol mesmo!

então estava eu lá: com uma garrafa na mão, a rapieira pendurada no lado esquerdo da perna (nuca se sabe) e uma curiosidade que eu vou te contar...

pigarreei baixo, e

batí na porta.

batí na porta

batí na porta...

nada ouví.

frustrado pelo fora da possivel amizade do marinheiro, deixei a garrafa na porta e pensei em partir, mas antes batí pela ultima vez. a porta estava a berta e no primeiro toque ela se abriu.

meus olhos não pudiam compreender corretamente o que se passava naquele quarto completamente pintado de grafite de lapiz, com algumas estrelas desenhadas no teto do mesmo. uma escrivaninha com um grosso caderno com uma pena do lado, um piano e uma cama com uma coucha cheia de retalhos escritos. ninguem no local... entrei a passos leves, e me dirigi ao grosso caderno (não sei porque me chamou a a tenção). logo na primeira página havia um longo sorriso desenhado a mão (=D), nem preciso dizer que neste instante minha mente já havia imaginado mil coisas. e então me dirigi a cama... me acentei... e quanto me acentei sobre ela percebi que havia algo em baixo... (não ... eu não sou de contar horrores por isso...) enfiei a mão debaixo da cama para puxar o que quer que aquele velho rabugento esteja fazendo lá em baixo (isso são modos de receber uma visita? - pensei)!

mas... oque é isso?
uma garota?
ela chorando correu em direção ao caderno do outro lado do quarto e abraçou-se a ele e me olhava por de tras dele...

-quem é você?
-...
- vamos! me diga! que é voce? eu não vou te fazer mal... - e a garota não fazia nada... -


para tentar acalma-la tentei ignora-la dentro de sua própria casa... caminhando dentro do quarto com as mãos para trás e um nariz bem empinado, quando de repente escorreguei num monte de lapís e caí de costas no chão... (aquilo doeu). a garotinha riu, mas quando eu olhei para ela, fechou a cara e fez um estridente sssssssssssssssssssssshhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh con o indicador tapando os lábios... não sei porque, mas ela parecia ter medo de alguem acordar ou algo assim.

com bons modos, esperei o suposto marujo voltar e fiquei ali a noite toda, sentado na cama e a garotinha do outor lado do quarto ... sem dizer uma palavra...

foi quando ali pelas 6:00 da manhã ( e eu já morto de sono) que a garota correu para a porta, e me trancou lá em baixo; segundos se passaram e o farol foi desligado.
eu comecei a entender o que se passava...

tornei a me sentar na cama e a garota chegou. aproximou-se de mim e falou bem baixinho:
- olá! não fale alto!
- certo (achando isso engraçado...), onde está o moço que toma conta daqui?
- não há nenhum moço. eu vivo aqui sozinha!
- OQUE?
- sssssssshhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!! (com as mãozinhas no ouvido)
- desculpe! oque? vc vive aqui sozinha?
- sim!
- mas você não tem medo?, você precisa sair.
- não... não tenho medo porque ninguem sabe de mim aqui, e não preciso sair porque só voce acha que eu preciso....
- mas voce não pode ficar aqui isolada... tem que conhecer as pessoas na rua...
- você não entendeu. eu não sou presa aqui! eu saio a hora que eu quizer, só que gosto daqui.
- mas você não tem nada aqui (esnobei)
- você é que não tem nada e veio buscar minhas coisas... PRA TRÁS!
- ssssssssssshhhhhhhhhhh (era eu agora. rs...) ei ei ei...peraí... não venho buscar nada... eu tambem não tenho muita coisa... mas conheço a rua, as pessoas...
- mas eu tambem conheço. só não quero ficar lá! aqui o silencio é ótimo. e eu tambem tenho o farol para trabalhar, o piano para tocar e meu caderno para escrever...
- bom se é assim... fique sendo! eu preciso ir... a propósito: me chamo Don Rapouso Ladreau.. e o seu nome é? - ela ficou em silencio... - não vai me dizer o seu nome não?
- eu já disse...
- ah sim! rs... o silêncio... bom... eu me vou... como é apenas uma garota... não posso deixar essa garrafa de rum aqui!
- não ... deixa sim! não vou beber! vou guardar de recordação de alguem que se preocupou comigo!
- mesmo mesmo? olha lá hein!
- mesmo mesmo! rs...
- tenha um bom dia!
- para você tambem!

voltei para casa, mais intrigado ainda... "uma garota que toma conta de um farol, que deve ter os ouvidos super sensiveis e escreve demais...." interessante...

passado uns dias encontro uma carta dela agradecendo a visita, e pedindo para ir visita-la sempre que eu quizer... apenas com uma condição... fazer menos barulho...
no fim da carta estava assinado... o silencio...






Esta nota é uma forma de creditar os diretos autorais.
As imagens contidas nesta postagem referem se a obra denominada "le scorpion" pertencentes aos autores Enrico Marini (arte) e Stephen Desberg (roteiro). não possuem o fim lucrativo, degradação da imagem do personagem e nem o intuito de roubo de direitos autorais.